O livre-arbítrio e os equívocos de interpretação

Nélio Furtado – Taguatinga-DF

O livre-arbítrio é uma faculdade do Espírito, ínsita nas leis de Deus,  que outorga ao ser inteligente pensar e agir de acordo com o seu próprio discernimento, assumindo, por consequência, toda a responsabilidade decorrente de suas decisões. Na trajetória pelos reinos inferiores, essa faculdade encontra-se na fase embrionária, subordinando-se o princípio espiritual a um determinismo quase que absoluto. Ao atingir o estado hominal, ainda na condição de inteligência em formação, alcança a auréola da razão e passa à condição de Espírito, agora apto a governar o próprio destino. Em razão disso, livre-arbítrio é sinônimo de responsabilidade, passando a criatura  a responder, perante a lei de causa e efeito, pelas consequências dos atos que praticou.

É assim que o Espírito,  ao passar pelos vários estágios evolutivos, a partir dos mundos primitivos, estagiando nos mundos de provas e expiações até atingir os mundos divinos onde, na condição de Espírito puro, atinge o grau  máximo de perfeição relativa que o Criador reservou a todas as criaturas. Ocorre que durante sua trajetória evolutiva, no curso dos milênios sem fim, o Espírito, na busca constante do conhecimento de si mesmo, em estágios inferiores de evolução, acaba  por sucumbir diante dos arrastamentos e se envereda na prática do mal, pelo que terá de responder um dia perante as leis magnânimas do Criador.

Presentemente, estamos estagiando num mundo de provas e expiações onde há predomínio do mal sobre o bem. Isso porque, dando curso às tendências inferiores que ainda carrega dentro de si, distante que se encontra da espiritualidade superior, o homem usa mal o seu livre-arbítrio em prejuízo dos outros e dele mesmo. Os males e as injustiças que ainda prenominam na Terra, tendo como causa primordial o egoísmo, que é a matriz de todos eles, são um atestado eloquente do atraso moral em que se encontra a humanidade terrena.

Allan Kardec, o ínclito Codificador, na questão 872 de O Livro dos Espíritos, intitulada Resumo teórico do móvel das ações humanas, ao analisar as tendências inferiores do homem, causadoras do mau uso do livre-arbítrio, esclarece:

 “[…] Cabe à educação combater essas más tendências. Fá-lo-á utilmente, quando se basear no estudo aprofundado da natureza moral do homem. Pelo conhecimento das leis que regem essa natureza moral, chegar-se-á a modificá-la, como se modifica a inteligência pela instrução e o temperamento pela higiene.” (Grifamos.)

Considerando que o espiritismo é uma doutrina essencialmente de educação, cabe a ele a missão de transformar o caráter e, por consequência, as tendências inferiores que ainda influenciam o homem na prática do mal. Ao centro espírita, na condição de célula do Movimento Espírita, cabe divulgar a doutrina àqueles que o procuram em busca de conhecimentos novos que os moralize e esclareça quanto às consequências do mau uso do livre-arbítrio.

Nesse particular, a tarefa dos dirigentes de casas espíritas reveste-se de fundamental importância, pois é através do estudo e da vivência diária dos postulados da doutrina, que se conseguirá paulatinamente esclarecer e educar os irmãos que se integram aos programas de estudo doutrinário e às tarefas na área da mediunidade e da promoção social humana. É ocioso dizer que o trabalho de divulgação do espiritismo deve manter estrita fidelidade aos postulados codificados por Allan Kardec.

 Nessa direção, o Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita deve ser bem organizado, possuir normas claras, que permitam o  estabelecimento de  uma disciplina de teor educativo a fim de que se possa aproveitar bem o tempo dedicado a esse mister. Os cursos deverão ter sequência pré-estabelecida, iniciando-se pelas obras básicas da codificação e depois por aquelas que lhes são subsidiárias. Todos os cursandos devem estar conscientizados da importância do serviço ao próximo prestado através da prática da mediunidade, parte integrante do edifício da codificação.

Como se vê, a organização dos vários setores da casa espírita, dentre eles o ESDE, deve sê-lo de forma simples, sem muita burocracia, sem formalismo, tudo em consonância com os próprios postulados da doutrina espírita, que já se encontra muito bem exposta nas cinco obras fundamentais. Que os dirigentes e os membros da equipe evitem mudanças extemporâneas, às vezes fundamentadas em ideias estranhas aos princípios da codificação, mesmo sob o pretexto de serem inovadoras, como alguém que guardasse a pretensão de querer “reinventar” o espiritismo. Nesse ponto, quanto mais descomplicado for o desenvolvimento das tarefas, melhor será o rendimento da equipe. As normas vigentes, se bem estabelecidas pelos dirigentes, devem proporcionar aos frequentadores ainda iniciantes oportunidades de aprendizado, sobretudo quanto à importância da moral espírita, além de uma visão correta do conjunto da obra de Kardec que deve ser aceita no seu todo.

Como dissemos anteriormente, as normas vigentes devem ser aceitas por todos os dirigentes e frequentadores. O cursando, ao matricular-se no ESDE, assina uma espécie contrato de adesão com a direção da casa, concordando com as normas estabelecidas.

 O respeito ao livre-arbítrio está na faculdade que cada cursando tem de, a qualquer tempo, caso não concorde com as normas em vigor, deixar o ESDE, e procurar o caminho que melhor lhe convier. O que deve ser evitado pela direção, a pretexto de se respeitar o livre-arbítrio de alguém, é permitir que o participante crie norma de conduta própria, na maioria das vezes  por desconhecimento doutrinário e  passe a escolher, a seu talante, participar  dessa ou daquela atividade em detrimento do conjunto. Uma coisa é respeitar o livre-arbítrio da pessoa, direito inalienável que toda criatura humana tem, outra é criar um tipo de adoração cega, irracional ao livre-arbítrio, situação em que tudo é permitido. Nesse contexto, estar-se-á institucionalizando dentro do ESDE a desordem, os desmandos, a indisciplina, além de se criar um clima propício ao surgimento de um certo desânimo nos monitores, que durante todo o período letivo envidaram os melhores esforços para que a nobre tarefa se desenvolvesse bem. Nessa situação, é bem possível que ao chegar o final do ano tenham a desagradável sensação de terem passado o tempo “enxugando gelo”. É preciso que haja uma conscientização de que não bastam apenas leituras apressadas dos postulados espíritas, sem metodologia e sem pesquisa. É necessário penetrar o sentido profundo dos ensinamentos que os Espíritos superiores ditaram a Kardec. Evitar que o personalismo venha transformá-los numa sombra capaz de obscurecer o nosso discernimento, em vez de abrir a nossa visão para enxergarmos a luz que verte do seu conteúdo para iluminar a nossa consciência. Se não tomarmos cuidado, poderemos estar prestando um desserviço à doutrina que tanto prezamos, contribuindo para instalar a confusão na mente dos neófitos. Sobre isso, alerta o prof. Herculano Pires, no seu livro O Mistério do Bem e do Mal, capítulo 41, na linguagem franca que sempre caracterizou o seu estilo, para os prejuízos que a falta de formação doutrinária da maioria dos espíritas tem causado ao espiritismo, ao afirmar: […] “Nosso papel, no Espiritismo, tem sido o de macaco em lojas de louças.” […]. Que esses despretensiosos comentários sirvam para as nossas reflexões


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